Sou Judas Eucariotes
De Jesus o traidor
Este é meu testamento
Com o que tenho de valor
Pois tudo que aqui juntei!
A vocês agora dou.
P’ra nosso amigo Alexandre
Rapaz de muito valor
Deixo pr’a ele um pinico
Com cheirinho de cocô
E esta velha dentadura
Que herdei de meu avô
Para a professora Irene
A mais pontual na escola
Vou deixar o meu roscópio
P’ra nunca perder a hora
Deixo a velha bicicleta
Também a blusa sem gola
Para o amigo Raimundo
com seu tamanho gigante
Deixo uma velha botina
Com cadarço de barbante
E minha velha espingarda
Para matar avoante
Para a amiga Jesumira
Que é minha preferida
Deixarei como herança
A minha calça comprida
O meu chapéu de cow-boy
E a minha blusa florida
Minha velha bata branca
Que é de minha estimação
É para o amigo Zé Galdino
Aplicador de injeção.
Que é pra não sentir calor
Nestas tardes de verão
Para a amiga Joaquina
Que é quase uma anciã
Deixo meu casaco velho
Marrom e feito de lã
Que é pra quando ela vestir
Se lembrar que fui seu fã
Para a amiga Dalvany
A professora padrão
Vou deixar-lhe como herança
Meu velho mata-borrão
Minha pena, meu tinteiro
Para fazer anotação
Para a amiga Birrinha
Deixo com muito amor
Sete chaves num chaveiro
Cada qual com seu valor
Uma delas abrirá
O coração de seu amor
Para o colega Argemiro
Com prazer eu vou deixar
O meu pente e a brilhantina
P’ra ele se pentear
Uma camisa listrada
E o perfume cabochá
Para Geraldo Magela
Que é filho de fazendeiro
Deixarei como herança
Minha roupa de vaqueiro
O meu cavalo alazão
E o meu cachorro trigueiro
Para Maria viúva
Minha discípula querida
Vou deixar com muito gosto
Meu remédio pra ferida
O meu livro de receitas
E uma moringa partida
Para a colega Adelaide
Uma mulher verdadeira
Vou deixar um caldeirão
Um pilão e uma peneira
Uma capa pra colchão
E um pingüim de geladeira
Para o colega Aristides
Um cara mui-divertido
Deixo uma velha cueca
Da cor de burro-fugido
Meu coador de café
E um chapéu encardido
Esquecer minha Lerisse
Seria uma ingratidão
Por isso deixo pra ela
Meu gato de estimação
Uma blusa de crochê
E um pôster da seleção
Para o amigo Didi
Eu deixo com muito gosto
A cueca samba-canção
Que eu comprei em agosto
E uma toalha velha
P’ra ele enxugar o rosto
Para Nenen de Geraldo
Mulher de grande presteza
Deixo meus óculos Ray-ban
E o meu par de japonesa
E uma peruca Chanel
P’ra realçar a beleza
Pra minha amiga Mazé
Deixo algo especial
Minhas calças de veludo
Uma espingarda e um bornal
Minhas botas sete léguas
E o meu perfume floral
Da minha amiga Luzia
Eu jamais vou esquecer
Deixo meu rosário bento
Mais alguma mincharia
Para ela rezar por mim
Toda noite, todo dia.
Para o colega Josias
Que de bem muito se fala
Deixarei minha pistola
Bem carregada de bala
Minhas botinas de couro
Dois cassoás e uma mala
Pra minha colega Jisus
Pois não posso esquecer dela
Deixarei meu cinturão
De couro, sem a fivela.
Minha tevê preto-e-branco
pra ela assistir novela
Para o amigo João Barbeiro
Que dá conta do recado
Deixarei como herança
Meu velho tênis furado
Meu jegue de montaria
E um telefone quebrado
Para amiga Dezita
Que faz o melhor café
Vou deixar como herança
Aquilo que ninguém quer
Um velho par de sapatos
E quatro meias com chulé
Para Maria de Aristides
Que é mulher batalhadora
Deixarei como herança
Dois baldes e uma vassoura
Uma máquina de costura
Tesoura, dedal e agulha
Para a amiga Aldeni
Que é minha irmã de fé
Vou deixar como herança
A garrafa de café
A minha bíblia sagrada
E quatro cuias de coité
Para o bom Elizeu André
Que é quem manda no pedaço
Deixo para ele um jucá
E um cavalo de aço
Mais uma velha carabina
Que foi usada no cangaço
Para o amigo expedito
Deixo minha carrocinha
Para ele amparar
Sua filha Teresinha
Já que eu não posso mais
Sustentar a pobrezinha
Para o amigo Antônio de Cosma
Já que ele é açougueiro
Vou lhe deixar como herança
Um bode pai de chiqueiro
E pr’a montar um frigorífico
Gamela sal e tempero.
Para Raimundo dos Santos
Eu deixo aqui meu legado
Uma vespa sem pneus
E armazém abarrotado
Um caminhão chevrolet
Com o radiador furado
No momento eu me despeço
Pois é chegada minha hora
De tudo que fiz de errado
Eu me arrependo agora
E os meus lenços eu ofereço
Pra aquele que por mim chora.
domingo, 9 de março de 2008
Malhação de Judas
Em Quixeré até o Judas está mais pobre. Pobre de idéias, pobre de interesse pela manutenção das tradições.
A malhação de Judas em Quixeré remonta ao inicio da década de 1940 e teve seu apogeu entre 1974 a 1988. Épocas essas em que vários comerciantes juntavam-se aos outros segmentos da sociedade para preparem a malhação do Judas. Nos primeiros tempos era esperada a visita sorrateira de alguns envolvidos na organização, que na noite de sexta-feira Santa levavam carros, carroças, bicicletas, animais plantas e tudo o mais que conseguissem levar para o sítio do Judas. Dependendo do grupo e do dono do objeto “furtado” (quando animais e frutas) nem sempre era devolvido, pois serviam para os comes e bebes na farra que se seguia após a queimação do boneco no sábado de Aleluia. Antes da queimação era lido um testamento que citava o nome dos donos dos objetos furtados, que os recebiam como herança. Esse testamento em forma de versos e rimas pobres citava os nomes dos comerciantes e das pessoas mais populares da localidade em que se promovia a malhação.
Hoje com a violência espalhada por toda parte, jamais seria possível a prática de falsos furtos. Mas, poderia ser feita a coleta em dinheiro para patrocinar as despesas na preparação do boneco e do sítio e demais gastos que a brincadeira requer.
A malhação de Judas em Quixeré remonta ao inicio da década de 1940 e teve seu apogeu entre 1974 a 1988. Épocas essas em que vários comerciantes juntavam-se aos outros segmentos da sociedade para preparem a malhação do Judas. Nos primeiros tempos era esperada a visita sorrateira de alguns envolvidos na organização, que na noite de sexta-feira Santa levavam carros, carroças, bicicletas, animais plantas e tudo o mais que conseguissem levar para o sítio do Judas. Dependendo do grupo e do dono do objeto “furtado” (quando animais e frutas) nem sempre era devolvido, pois serviam para os comes e bebes na farra que se seguia após a queimação do boneco no sábado de Aleluia. Antes da queimação era lido um testamento que citava o nome dos donos dos objetos furtados, que os recebiam como herança. Esse testamento em forma de versos e rimas pobres citava os nomes dos comerciantes e das pessoas mais populares da localidade em que se promovia a malhação.
Hoje com a violência espalhada por toda parte, jamais seria possível a prática de falsos furtos. Mas, poderia ser feita a coleta em dinheiro para patrocinar as despesas na preparação do boneco e do sítio e demais gastos que a brincadeira requer.
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