domingo, 9 de março de 2008

Testamentos de Judas no Tomé, início do anos 70

Sou Judas Eucariotes
De Jesus o traidor
Este é meu testamento
Com o que tenho de valor
Pois tudo que aqui juntei!
A vocês agora dou.

P’ra nosso amigo Alexandre
Rapaz de muito valor
Deixo pr’a ele um pinico
Com cheirinho de cocô
E esta velha dentadura
Que herdei de meu avô

Para a professora Irene
A mais pontual na escola
Vou deixar o meu roscópio
P’ra nunca perder a hora
Deixo a velha bicicleta
Também a blusa sem gola

Para o amigo Raimundo
com seu tamanho gigante
Deixo uma velha botina
Com cadarço de barbante
E minha velha espingarda
Para matar avoante

Para a amiga Jesumira
Que é minha preferida
Deixarei como herança
A minha calça comprida
O meu chapéu de cow-boy
E a minha blusa florida

Minha velha bata branca
Que é de minha estimação
É para o amigo Zé Galdino
Aplicador de injeção.
Que é pra não sentir calor
Nestas tardes de verão

Para a amiga Joaquina
Que é quase uma anciã
Deixo meu casaco velho
Marrom e feito de lã
Que é pra quando ela vestir
Se lembrar que fui seu fã

Para a amiga Dalvany
A professora padrão
Vou deixar-lhe como herança
Meu velho mata-borrão
Minha pena, meu tinteiro
Para fazer anotação

Para a amiga Birrinha
Deixo com muito amor
Sete chaves num chaveiro
Cada qual com seu valor
Uma delas abrirá
O coração de seu amor


Para o colega Argemiro
Com prazer eu vou deixar
O meu pente e a brilhantina
P’ra ele se pentear
Uma camisa listrada
E o perfume cabochá

Para Geraldo Magela
Que é filho de fazendeiro
Deixarei como herança
Minha roupa de vaqueiro
O meu cavalo alazão
E o meu cachorro trigueiro

Para Maria viúva
Minha discípula querida
Vou deixar com muito gosto
Meu remédio pra ferida
O meu livro de receitas
E uma moringa partida

Para a colega Adelaide
Uma mulher verdadeira
Vou deixar um caldeirão
Um pilão e uma peneira
Uma capa pra colchão
E um pingüim de geladeira

Para o colega Aristides
Um cara mui-divertido
Deixo uma velha cueca
Da cor de burro-fugido
Meu coador de café
E um chapéu encardido

Esquecer minha Lerisse
Seria uma ingratidão
Por isso deixo pra ela
Meu gato de estimação
Uma blusa de crochê
E um pôster da seleção

Para o amigo Didi
Eu deixo com muito gosto
A cueca samba-canção
Que eu comprei em agosto
E uma toalha velha
P’ra ele enxugar o rosto

Para Nenen de Geraldo
Mulher de grande presteza
Deixo meus óculos Ray-ban
E o meu par de japonesa
E uma peruca Chanel
P’ra realçar a beleza

Pra minha amiga Mazé
Deixo algo especial
Minhas calças de veludo
Uma espingarda e um bornal
Minhas botas sete léguas
E o meu perfume floral

Da minha amiga Luzia
Eu jamais vou esquecer
Deixo meu rosário bento
Mais alguma mincharia
Para ela rezar por mim
Toda noite, todo dia.

Para o colega Josias
Que de bem muito se fala
Deixarei minha pistola
Bem carregada de bala
Minhas botinas de couro
Dois cassoás e uma mala

Pra minha colega Jisus
Pois não posso esquecer dela
Deixarei meu cinturão
De couro, sem a fivela.
Minha tevê preto-e-branco
pra ela assistir novela

Para o amigo João Barbeiro
Que dá conta do recado
Deixarei como herança
Meu velho tênis furado
Meu jegue de montaria
E um telefone quebrado

Para amiga Dezita
Que faz o melhor café
Vou deixar como herança
Aquilo que ninguém quer
Um velho par de sapatos
E quatro meias com chulé

Para Maria de Aristides
Que é mulher batalhadora
Deixarei como herança
Dois baldes e uma vassoura
Uma máquina de costura
Tesoura, dedal e agulha

Para a amiga Aldeni
Que é minha irmã de fé
Vou deixar como herança
A garrafa de café
A minha bíblia sagrada
E quatro cuias de coité

Para o bom Elizeu André
Que é quem manda no pedaço
Deixo para ele um jucá
E um cavalo de aço
Mais uma velha carabina
Que foi usada no cangaço

Para o amigo expedito
Deixo minha carrocinha
Para ele amparar
Sua filha Teresinha
Já que eu não posso mais
Sustentar a pobrezinha

Para o amigo Antônio de Cosma
Já que ele é açougueiro
Vou lhe deixar como herança
Um bode pai de chiqueiro
E pr’a montar um frigorífico
Gamela sal e tempero.

Para Raimundo dos Santos
Eu deixo aqui meu legado
Uma vespa sem pneus
E armazém abarrotado
Um caminhão chevrolet
Com o radiador furado

No momento eu me despeço
Pois é chegada minha hora
De tudo que fiz de errado
Eu me arrependo agora
E os meus lenços eu ofereço
Pra aquele que por mim chora.

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